segunda-feira, 21 de abril de 2008

A Pescaria

Meu dono gosta de uma pescaria, e na semana passada fomos conhecer o orla marítima (Valo Grande). Minha simpática dona ficou em casa fazendo geladinho diet (invenção secreta) de hortelã, cravo da índia e alfavaca, para vender a turistas vegetarianos.
Catamos algumas minhocas no quintal da casa e fomos até a cabeceira da ponte bi-municipal, nossa primeira parada. Meu dono, esperto como ele só, filou dois camarões de um japonês que lá encontrava-se e pescou um belo robalo, o qual vendeu para o próprio nipônico. Com o dinheiro no bolso seguimos nosso roteiro e paramos perto do antigo mercado municipal. Meu amado dono tomou uma cerveja e comprou várias salsichas, as quais dividiu comigo. Uma delícia !
Alguns moradores de rua que estavam tomando sombra e outros líquidos, se indignaram com a generosidade de meu dono e tentaram ganhar no grito meu petisco. Virei um cão feroz defendendo o meu lanche e resolvemos ir até a antiga balsa. Não foi possível pescar devido aos banhistas, um grupo de pré-adolecentes que adotaram o local como ponto de mergulho e saltos ornamentais.
Fomos até ao lado da passarela, outro ótimo ponto de pesca devido aos dejetos desovados pelas peixarias próximas. Pescamos cinco mandis de bom tamanho, os quais meu esperto dono vendeu a um turista como filhotes de tucunarés. Com a grana bebeu outra cerveja no bar próximo, e eu ganhei um churrasquinho dá hora, muito gostoso e inteirinho só para mim, o que causou inveja nos outros cães, aqueles que só comem as gordurinhas descartadas pelos gulosos comedores de espetinhos de carne.
Após várias cervejas e muita conversa jogada fora, meu dono arrumou um novo bico, vai ser exterminador de cupins, e eu conheci diversos caninos que batem ponto ao lado da famosa churrasqueira, uns chatos pidões, mal amados e mal lavados.
Meu dono ficou sabendo de muitos pontos de pesca ao longo do Valo Grande. Alguns momentaneamente destruídos por galhos de árvores recém podadas, outros por acúmulo de lixo doméstico tipo sofá, geladeiras, pneus, etc e outros um tanto assoreados pela vegetação e muitos outros em ótimo estado de usufruto.
Foi uma tarde prazerosa, nos divertimos, fizemos novas amizades, conhecemos um belo ponto turístico e desfrutamos de magnífica paisagem onde o por do sol é deslumbrante. O único problema foi que ao retornarmos ao lar, a simpática tinha armado a maior confusão. Parece que o geladinho de alfavaca fez mal a um garoto e a vizinhança queria por fogo no barraco. Meu dono, meio torrado e feliz, nem ligou e ainda falou para a simpática: - Eu e Bingo nos divertimos muito... Ta nervosa ? Vá pescar !

quinta-feira, 20 de março de 2008

A Cidade

Lembram de mim?
Sou Bingo, um cão novato na cidade, tenho um diário onde anoto tudo o que acontece comigo. Meus donos mudaram-se recentemente do sítio de onde foram expulsos pela praga dos caramujos africanos, sou um tanto caipira, meio matreiro, muito inteligente, curioso e perguntador. Como podem constarem, um chato completo.
Estou voltando da grande recepção a uma ilustre figura municipal, em seu regresso apoteótico do outro lado do mundo. Ainda estou apavorado com o monumental foguetório de boas vindas. Não entendi o porque os nativos gostam tanto de barulho. Acho desperdício tudo isso,seria melhor arrecadar uma graninha entre os baba-ôvos da tribo, comprar cestas básicas e fazer uma grande entrega aos necessitados, com direitos a discursos e tapinhas nas costas e discretas lágrimas de crocodilo pela mortal saudade. E ali mesmo ficariam todos sabendo ao que veio, o que quer e a que se propõe a bondosa figura.
Sinto falta do meu amado sitio, onde corria livre e feliz atrás de paquinhas e jacus, nadava em límpidos regatos e latia sem motivo para a lua. Aqui na cidade grande corro atrás de ratos na beira do valo, ataco bravamente sacos de lixo e arrumo confusão com os cães locais, que detestam cachorro de fora. Acho que é devido a falta de osso generalizada. Sei que sou um cachorro caipira, tenho medo de passear a noite, pois aqui ocorre um tal de assalto. Não desfruto das alegres reuniões noturnas das guangues de esquina nas diversas vilas da cidade, tenho pavor de balas perdidas... acho que assisto muita televisão.
Meu divertimento é nadar no piscinão municipal da Rua Capitão Dias, quando chove. Quando o calor é demais, dou um pulo na fonte, mas não gosto muito porque fico com dor de cabeça devido ao fumacê dominante. Gosto da Praça da Matriz, lindo cartão postal,e gosto muito mais de dividir as sobras do lanche dos numerosos moradores de rua, mas confesso acanhado que não sou alcoólatra.
Pratico exercícios correndo atrás de urubus e gatos abandonados na orla marítima e me divirto observando os nativos jogando lixo na água, a meninada quebrando telefones públicos e aprendo novos palavrões com os bandos de adolescentes notívagos que dão um belo exemplo de sua esmerada educação.
Vim para ficar, já fiz amizades com cachorro de gente importante, e logo logo vou contar as novidades...aguardem, Bingo o cão repórter e espião está na cidade.